sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Presente de amiga


Minha amiga Talita mandou o link com as músicas do grupo Pitanga em Pé de Amora justificando assim: "Meu coração tá todo mole. Ouvir me deixou tão feliz que achei justo mandar um e-mail".

Obrigada, Talinda. O meu também.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

El, el, el...Gabriel


Eu enchi o Gabriel de cosquinha quando ele subiu no carrinho que antes se esforçava para empurrar e sentou no meio desses vasos com manjericão roxo.

Quando ainda era a Rodésia do Sul


"Eu voltava devagar pela trilha comprida, sentindo o calor aumentar, os tomates pesando nos braços. Na volta eu não corria ao passar pelo território da jibóia, mas ficava de olho no capim, no caso de algum movimento ondulado significar que ela estava vindo me pegar. Devagar seguia meu caminho, ouvindo os pássaros, os pássaros da África, especialmente os pombos, o lento ruído que induz devaneios e nostalgias.

Punha os cestos lado a lado, sobre a mesa da cozinha, e bebia um copo atrás do outro de água morna do filtro. "Faz uma sopa para nós, para o almoço", Joan dizia da varanda, onde repousava numa espreguiçadeira de vime, a outra repleta de gatos. Eu enchia a fornalha do fogão Carron Dover, igual ao nosso ― igual ao de todo mundo, na época ―, arrumando a lenha de modo a deixar espaços para o ar e logo mais o fogo ardia. De um gancho sobre o fogão eu baixava o enorme tacho de ferro preto que sempre cheirava a ervas aromáticas, por mais que fosse lavado. No tacho eu despejava os cestos de tomates, dez quilos ou mais. Colocava o tacho no fogo e ia sentar na amurada da varanda dos fundos, as pernas balançando, vendo as galinhas ciscarem, os cachorros, se estivessem por lá, os gatos, cujas vidas corriam paralelas às dos cães, sem tomarem conhecimento uns dos outros. Os gatos tinham suas próprias cadeiras, lugares, moitas, onde aguardavam passar o pior do calor do dia. Os cães circulavam pela varanda mas nunca entravam dentro de casa, território de Joan e dos gatos.

Mais ou menos uma hora depois eu tirava o tacho do fogo. Estava cheio de uma polpa vermelha, borbulhando devagar. Com a colher de pau eu ia mexendo o caldo e, com a outra mão, pescava os pedaços de pele com uma colher de prata. Esse era um lento e agradável processo. Depois de fisgadas todas as rodelas de pele rósea, eu punha sal, pimenta, um punhado de tomilho e um litro de creme de leite bem amarelo. Aí o tacho voltava para o fogo, para cozinhar em fogo brando por mais uma hora.

Depois, o almoço. Pratos cheios de caldo vermelho perfumado, que faziam a cabeça girar com seu aroma. Mais que tomar eu absorvia aquela sopa, junto com as lembranças da horta, onde àquelas alturas centenas de pássaros estariam tomando água nos baldes ou se espojando na poeira dos canteiros. O arrulho comprido dos pombos, o cheiro forte dos tomates, a jibóia ― tudo isso fazia parte do gosto.

Sopa de tomate é isso. Nunca se contente com menos."

Trecho de Debaixo da Minha Pele, primeiro volume da autobiografia da escritora iraniana Doris Lessing

Foto: David Freddyfoyle

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Um Ulisses


Entre o inglês e a escola, havia o alemão. O que preenchia os 15 minutos do trajeto que as duas crianças faziam duas vezes por semana era uma velha fita em alemão. Iam o caminho todo com os cotovelos apoiados nos bancos da frente, divertindo-se com aquelas palavras que não conheciam e em especial com a seriedade com que aquele homem tratava de ouvir a fita. "Foi assim, sozinho, no carro, que aprendi a falar alemão", dizia o Ulisses.

Ulisses chegou sabe-se lá como até a casa da minha avó. Até então, ela nunca tinha cogitado ter um motorista, sempre fazia tudo a pé. Deve ter alguma relação com a festejada proliferação de netos (hoje quem trabalha com ela é o Nata, sujeito de um metro e meio de altura que sempre arruma um jeito de fazer um comentário positivo, seja qual for o assunto. é o que se pode chamar de uma pessoa que é naturalmente uma boa companhia).

Eu e meu irmão passávamos muito tempo com o Ulisses, ou então os minutos ao lado dele eram tão intensos que fiquei com essa eterna sensação. Nós morávamos numa casinha na mesma rua que a vovó ― casa que habita até hoje com assustadora frequencia meus sonhos ― então, se preciso, chamávamos por Ulisses.

Ele sabia falar alemão fluente e atribuía o fato ao acaso. Trabalhou durante muitos anos como motorista em um tribunal e não havia muito trabalho a fazer, passava o tempo todo meio à toa. Ulisses me ensinou a contar de 1 a 10 em alemão. Até hoje os sons desses números moram na minha cabeça e só não escrevo aqui porque tenho amor próprio: alguém que fala alemão gargalharia às minhas custas!

Nunca esquecia de dar presentes em aniversários e gostava muito do meu irmão, sem deixar de se mostrar atencioso e entusiasmado com todas as minhas mil perguntas. Tinha o rosto marcado por um acidente porque quando era bem menino entrou na frente de um caminhão, na estrada, para salvar a irmã. Os dois sobreviveram, mas o Ulisses teve sequelas. Piscava muito. Vejo com nitidez o Ulisses da minha memória piscando, com o olhar vago, pensando talvez em sérias questões. Estava sempre sereno, tranquilo até demais, de um jeito que incomoda uma criança.

Foi o Ulisses que me contou que existia algo chamado Astrologia. Que aquele quadradinho conhecido como Horóscopo publicado em jornais e revistas era um estudo sério, pessoas dedicavam suas vidas a isso. Contou-me tudo sobre meu signo e um dia apareceu com meu Mapa Astral. Ele leu pilhas de livros sobre Astrologia e baixou um programa de fazer mapas no computador (será que era isso? já existia?). O que é, Ulisses? "Quando você nasceu, todos os planetas estavam apontando para algum signo, e isso é tão importante quanto seu Sol, que é o seu signo".

Só fui entender o que significava aquela espécie de mandala multicolorida cheia de riscos apontando planetas, palavras esquisitas como "conjunção" e "quadratura" anos depois, embora tenha tentado, e muito, na época. Mais tarde, fui à uma astróloga, mas o mapa que ele fez pra mim está muito bem guardado.

Por onde andará Ulisses?

Foto: Penelope Umbrico

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Delicada


Andei a semana toda com uma espécie de hortinha portátil para lá e para cá, e ouvi uma porção de vezes, deliciada, as pessoas cantando quase sem querer, como se em coro:

Alecrim, alecrim dourado
Que nasceu no campo
Sem ser semeado
Alecrim, alecrim dourado
Que nasceu no campo
Sem ser semeado

Foi meu amor
Que me disse assim
Que a flor do campo é o alecrim
Foi meu amor
Que me disse assim
Que a flor do campo é o alecrim

Alecrim, alecrim dourado
Que nasceu no campo
Sem ser semeado
Alecrim, alecrim dourado
Que nasceu no campo
Sem ser semeado


Foto: Flor do trevo, de Juvenal Pereira

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

A fome de Neide


É um fim de tarde de domingo quando Neide abre o forno e, antes de acomodar ali três avantajados pães de licuri, faz um desenho em cima de cada um, rápida e habilidosa. "É raro eu comprar pão. Não há padarias aqui perto e, bom, eu adoro preparar", diz. Em poucos minutos o cheiro já invade a sala, ou a cozinha, ou a horta. Difícil separar uma coisa da outra – tudo na pequenina e charmosa casa da nutricionista Neide Rigo parece fazer parte de um mesmo cômodo.

Há uma coleção de pilões enfileirada na sala de jantar, da qual ela destaca o primeiro de todos, herança de um tio-avô, feito de madeira. A tinta verde gasta, mas ainda marcante. No pescoço de Neide repousam em um fio de prata três minipanelas de cerâmica, compradas de um amigo gaúcho. A idéia de colocá-las em um colar, no entanto, foi dela. Vestígios da artista plástica que foi um dia? Não, quando decidiu largar a faculdade, conta, deixou uma pasta com todos os trabalhos na cadeira de um ônibus e desde então nunca mais ousou tocar pincéis.


Hoje, as horas de Neide são gastas na cozinha. Vez ou outra em um consultório, quando exerce a profissão de nutricionista, mas principalmente lá mesmo, onde ela fazia naquele domingo o pão que horas depois seria servido bem quente, com a manteiga derretida, preparando os apetites para a costela de porco, a couve, a canjiquinha, a batata doce e o bolinho de milho. "Os mineiros deixam a canjiquinha num ponto parecido com o do risoto e servem com a costela como se fosse um ensopado. Eu prefiro assim, mais sequinho. Outra forma de comer a couve é rasgá-la, aferventá-la e depois passá-la no azeite com alho. Ou então em uma sopa", ensina a cozinheira, que colheu as imponentes couves em sua própria horta.


A horta é recheada de folhas, raízes e frutos, alguns tão deliciosos como difíceis de ser encontrados em mercados de São Paulo, a exemplo do mangarito (um tipo de batata), da capiçoba, similar ao espinafre, ótima refogada, e do jambu, erva que amortece de leve os lábios, muita usada na cozinha amazonense. "Vou trazendo grãos e sementes de tudo quanto é canto. Já tentei catalogar, colocar plaquinhas, mas desisti, a gente vive correndo", conta Neide.


O tempo foi usado para intensificar as pesquisas sobre alimentos típicos do país, integrar o movimento Slow Food e postar as invencionices num blog, o Come-se. "As pessoas me perguntavam o que era tal comida e se eu não sabia não me contentava com isso. Saía pesquisando", diz. No rádio, música sertaneja de Mariano da Silva e Terrinha que o marido de Neide, o médico Marcos Nogueira, colocou pra tocar.

Abocanhar um bolinho de milho e encher o garfo de couve e canjiquinha ouvindo Saudade do Matão "dá uma saudade de uma coisa que não se sabe o que é, nem de onde vem", como escreveu o brasileiro João Guimarães Rosa. Escritor que Neide escolheu para resumir quem ela é, no perfil de seu blog. "Eu quase que nada não sei, mas desconfio de muita coisa", escreveu ele, parafraseou ela. Por favor, Neide, continue desconfiando.

*Versão em português do texto publicado na centésima edição da revista americana Saveur, especial sobre cozinheiros pelo mundo.

Fotos: Marcelo Barabani

Obrigada, Neide, por ter aceitado nosso pedido apressado e aberto as portas de sua amorosa casa

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Dunas



Conversei com o German Lorca há alguns anos. Sentamos os dois no hall de seu estúdio na Vila Mariana e ele tinha pressa. Falava muito de fotografia. Sim, óbvio, mas mesmo quando eu fazia perguntas diretas sobre sua infância no Brás, sua rotina, ele pegava um atalho e divagava sobre a profissão.

Foram inúmeras tentativas de desviar o assunto, sair do círculo que alguém demarcou no chão e chamou de furo e que pode tornar um bate-papo comercialmente útil e amaciar o ego, mas anular toda a beleza que sempre existe em qualquer troca.



De tudo, ficou pouca coisa (o tempo às vezes funciona como o braço distraído que apaga o que já foi escrito na lousa enquanto a outra mão dá continuidade à história). Mas uma das lembranças continua muito fresca, e acho que nunca vai desgrudar de mim.

O caso era mais ou menos assim:

"Certa vez observei, numa obra, talvez algum prédio que seria erguido em São Paulo, que uma luz fazia um movimento fantástico num monte de areia de fundição. Fotografei. Quando mostrei para as pessoas, perguntando o que achavam que era, todas respondiam, maravilhadas: 'São dunas!'".

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Os olhos que não embaçaram


Ele escolheu a cadeira próxima à saída, o vento do abre-e-fecha-a-porta, o barulho da campainha.

Com tantas pessoas na sala de espera, ela não tinha reparado naquele senhor que coçava os olhos sem parar e parecia absolutamente incomodado.

A sala lotada de gente, o senhor na cadeira próxima à saída e ela pensando o que diacho estava acontecendo: sua consulta era às 10 horas, já eram 10 horas e parecia que antes dela havia a humanidade inteira para ser atendida.

Quarenta minutos depois e duas pingadas de colírio depois, ele continuava lá, cabisbaixo, como se estivesse sentado à beira do rio São Francisco esperando Danúbio passar.

Uma hora ele foi. Como sentiu sua falta. Sabia que era o único que a entendia naquela sala abafada e silenciosa (por que mesmo passava o programa da Ana Hickmann na televisão? por que mesmo o banheiro se confundia com um armário de marfim atrás do balcão das secretárias?).

Quando foi embora, ela foi se sentar na cadeira próxima à saída.

Zé. Seu nome é Zé e uma jovem com pinta de ser uma comédia o acompanhava. Ele usava uma calça social e all-star preto. Ela só sabia isso. Mas imaginou. Imaginou que ele odeia médicos, acompanhantes, calor, acha que a Ana Hickmann parece uma girafa, adora cinema e não tira do pé o all-star que ganhou da neta.

Ele a deixou folheando uma revista antiga enquanto esperava seus olhos ficarem embaçados. Os olhos que, por um estranho acaso, não embaçaram desta vez.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Noche vieja na Paulista


Com um lenço branco no cabelo enfeitado com fivelinhas brilhantes ― que apareceram após acomodar o lenço da cabeça nas costas ―, dona Zica, "não a da Vai-Vai", ela avisa, comemora a chegada do Ano Novo na Avenida Paulista. Ri e dança o tempo todo. "Você está olhando essa senhora de 80 anos e pensando que ela tem muita energia, né? Mas em alguns instantes essa senhora vai sentar no ônibus e dormir o caminho todo até sua casa", diz.

Que no Ano Novo o maior desejo da dona Zica, aquele que ela carregava nas costas e no sorriso, se realize.