sexta-feira, 26 de junho de 2009

alguma coisa


A atendente da Oi tinha um telefone não-Oi que eu vi no bolso do casaco. "Todos os nossos aparelhos são desbloqueados e nós não cobramos multa se você resolve sair". Vocês me dão um aparelho se eu entrar, suponho? "Ah, sim, nos damos. Quem pega o plano 100 escolhe um celular desse valor aqui (algo em torno de 600)." Ah, que ótimo! E aí, como funciona? "Funciona assim, senhora, a senhora paga o aparelho e a Oi te reembolsa nos próximos 15 meses, com R$ 35 por mês". Ahn. E se eu quiser sair da Oi antes de completar esses 15 meses, eu paro de ser reembolsada, eu perco o dinheiro? Ela faz cara de sem graça (deve ter sido nessa hora que o outro celular apareceu no bolso). Deus me livre, eu não levanto a bandeira para operadora nenhuma, mas pelo menos nas outras nunca comi maniuara achando que era camarão seco. E a moça do coffee shop não quis contar qual era a marca do café e a colega teve um ataque de riso daqueles de fazer cair lágrima. Eu me senti um adulto no elevador com crianças. Tudo bem, gente, eu só queria saber a marca porque acho o café de vocês muito bom e vocês tiram bem. "Nós não podemos dizer, ordem da chefia. Mas é normal as cafeterias dizerem qual é?". A menina cutucou a diretora da escola vilipendiando um colega. "Eu já avisei a professora, ele continuou. Eu disse 'David, se você continuar dizendo que eu namoro com ele, eu vou falar com a diretora'". O seu Argemiro perguntou por que eu estava ali na escola, depois dos anos todos. "Você tá com filho aqui?". As garotas escondidas atrás dos puffs da biblioteca me perguntaram com levadas risotas: "Você é a professora da biblioteca?". Dret me vine, como diz meu pai, você vem atrás.

terça-feira, 23 de junho de 2009

mantecal cal


Queria um guarda-chuva sem hífen, o capecete laranja que usou nas cavernas. Queria o suor do Maquiné, o vento frio do pub da Augusta. Queria a casa de madeira, só que não o tamanho miniatura. Queria cheiro de livro velho, cheiro de melissa nova. Queria uma vida mais ou menos plástica. Como é que a gente conhece todas as nossas valências? Queria tanto alguma coisa que um dia fez a matutice de explodir na boca uma bola de chiclete ploc que virou uma bolha gigante e englobou a menina, levando-a para algum lugar entre o sol e a lua com aconchego de mantecal. Mas cadê a cesta? Segue, menina-ploc, que amanhã é Dia de São João e já inventaram arroz doce japonês com raspa de coco.

terça-feira, 16 de junho de 2009

amarela


Caminhei ao redor do Igapó e cobicei as casas todas. O rio que corta Congonhas, o lago que corta Londrina. Deve ser bom ser cidade com rio, mesmo que seja o fantasma. Lembro do garoto de 10 anos que, tempestuoso com a coleta de lixo de sua escola, disse: "Se a gente reciclar, não vai mais existir poluição e o rio Tietê vai ser limpo. Se a maioria ajudar, vai dar até para nadar nele de novo. Mas uma pessoa ajudando já é o começo". Ele saiu catando lixo de lixo errado e passou de classe em classe explicando por que é importante reciclar. Mas o Igapó. No Igapó, a menina pescava com o pai e um ganso, o menino bailarino desejava São Paulo, nós falamos alto de árvores e silenciosamente de sonhos. Ontem, acordei com a mulher da peça russa Semianyki dançando na minha cabeça, dançava aquela música que eu nem sei qual é, e nem sou capaz de reconhecê-la, mas saber que ela vai ficar guardada aqui já conforta (e a peça era sem graça pra caramba). Londrina tem os botecos mais legais do mundo e o fantástico Rodeio, restaurante gaúcho-paranaense, como a nonna, que serve os mesmos caprichados filés há 43 anos. Londrina tem conchas acústicas, calçadão e ainda tem lindas casas de peroba. Tem centenas de folhas secas crocantes e terra vermelha, mas é amarela como o losango da bandeira, um cachecol de flanela barata, laranja delícia, delícia. Londrina é velha, e menina.

terça-feira, 9 de junho de 2009

do bolo


"Uma vez um cara me encheu tanto o saco que eu passei pra ele o telefone do Bozo. Sabia de cor na época" - C.B.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Great Treat of Ice Cream


Cheguei tarde sem sono e peguei o livro quadriculado. American Food Writing: An Anthology. Folheando, encontro um texto com o título A Great Treat of Ice Cream escrito por...Walt Whitman! Uma carta enviada a sua mãe durante a Guerra Civil americana. Que privilégio ler isso.
E olha só a data.

"Washington, June 3, 1864

Mother, if this campaign was not in progress I should not stop here, as it is now beggining to tell upon me, so many bad wounds, many putrefied, and all kinds of dreadful ones, I have been rather too much with – but as it is, I certainly remain here while the thing remains undecided. Is is impossible for me to abstain from going to see and minister to certain cases, and that draws me into others, and so on. (...) O, I must tell you I gave in Carver hospital a great treat of ice cream, a couple of days ago – went round myself through about 15 large wards – (I bought some ten gallons, very nice). You would have cried and been amused too. Many of the men had to be fed; several of them I saw cannot probably live, yet they quite enjoyed it. I gave everybody some – quite a number of Western country boys had never tasted ice cream before (...)."

O texto está no livro The Wound Dresser: A Series of Letters from the Hospitals in Washington during the War of Rebbelion.

*Para mim, o sorvete era de tapioca

terça-feira, 2 de junho de 2009

Floresta


que flor é esta?

finge que morre
e quando menos se espera
é flor indo
flor vindo
floresta em festa

que flor é esta
que sempre resta?


(Alice Ruiz)

*ele achou essa arte no NYT