quinta-feira, 29 de abril de 2010

iemanjadelá


Poderia ser em Salvador, no dia 2 de fevereiro, mas era em Nova Orleans, no Jazz Fest. Ano passado, por acaso estávamos em uma espelunca em Salvador no dia de Iemanjá. Bem na hora de entrar na fila para jogar as flores no mar, chovia muito, deu fome e não achávamos padaria, e tivemos um grande imprevisto. Suspendemos o ritual. Resolvemos o pepino, passamos no shopping para comprar camisetas brancas e só então subimos nas pedras e jogamos nossas rosas. Estava sol. Fizemos fotos com chapéus gigantes, compramos colarzinhos que hoje vestem uma santa de madeira que encontramos na serra de Minas Gerais. A espelunca fechou, mas ainda vejo aqueles nossos vasinhos com rosas brancas no parapeito da janela. Se algum dia não der para jogar as flores no mar de novo, nem agora nem depois, que não saiam da cabeça.

Foto: Jatobá Madeira

quarta-feira, 21 de abril de 2010

varal de S. Xico



A mulher só ria. Parei o carro no meio da piçarra para fotografar os bichinhos. São dos netos da senhora? A senhora sempre faz isso, lava todos e pendura no varal? Ela ria, não respondia nada, achando aquilo a coisa mais normal. Me abraçou e corrigiu: os pelúcias são dos meus filhos, agradeceu a visita-relâmpago e continua sorrindo até agora. Eu tô ensaiando há mais de mês colocar aqui as fotos tiradas em São Francisco Xavier. Essas manifestações banais me fazem sorrir e trazem uma pequena paz. Como se o mundo, sempre tão sério e atordoado com perguntas, te pegasse pela mão e dissesse: sim, menina, tudo não passa mesmo de uma brincadeira, vai lá pintar seu nariz.

terça-feira, 20 de abril de 2010

viagem


Eu viajei e
deixei uma casa com
cortinas e tapetes flutuantes
atrás

eu viajei e vi
as mesmas coisas
as pessoas
as mesmas
gelatinas espessas entre eu e elas
vi espetáculos da natureza
a paisagem sonho
e dedos trêmulos na fotografia

vi bem perto a lava vulcânica
lamber meus pés
no pico da montanha mais fria o sorvete
aquecendo meu nariz
perdi de bobagem
o clique mágico da eternidade
um cisco no foco da câmera
abriu uma cratera em meu crânio
e caí no deserto

vi homens de quatro
lixando o chão com a língua para os chefes
olhos esmagados fora dentro ovos estrelados
num céu jamais visitado
vi um coração humano
despejado no lixo
entre pacotes de sopa vidros de remédio talões de cheque
um livro queimado e rasgado
cheio de palavras que amei
quando vivia

Silêncio
A igreja é uma nave
Sou um filhote de pássaro
entrando no ventre da mãe

Ninguém vê fico na praça bebendo
Ninguém vê agora a igreja sem missa
A Virgem miolos amolecidos pela auréola

A cabeça não pensa mais
Só nuvens

Borboletas saem do ventre da santa
carregam o corpo

Vão embora
Só eu pensando

- Pra onde?

*Viagem, de Marília Kubota

Eyjafjallajokull


Uma fivela no cabelo trançado, o mar verde e azul. Enfiou os pés na areia e suspirou. Como queria aquele vestido laranja florido, comprou. Desde quando passou a comprar seus desejos, sem amedrontar-se com eles como a tartaruga que enfia a cabeça para dentro do casco? Quando é que a gente para de se importar com o que pensam os outros e usa botinas com vestido se dá vontade, toma uísque se dá vontade, sai de regata na chuva se dá vontade? Foi, enfiou os pés na areia, tomou água S. Lourenço porque a mãe ouviu a tia dizer que tem ferro e ferro é bom para evitar depressão. Tem um Eyjafjallajokull dentro de todos nós, e ninguém sabe dizer como se chama, e nem precisa.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

brow


O ritmo acelerado faz com que a gente converse pouco mesmo morando tão perto. Mas toda vez que eu falo com ele ao telefone ou por e-mail, ele diz eu te amo e eu digo eu te amo. É um tratado que a gente assinou nas nuvens para garantir: está tudo bem. Às vezes, tarde da noite, de pijamão, ele quer conversar e eu me desculpo pelo cansaço e vou deitar. Me arrependo praticamente na hora. De vez em quando, me dá uma coisa e eu ligo para ele só para ouvir o corriqueiro eu te amo, e de vez em quando a gente fica flanando na piscina e falando sobre o Ceará, sem saber que um de nós estava com um pé lá. Companheiro de berço, de castigos no lavabo, sonecas no banco de trás do carro amaciadas pelo cobertor de flanela. Palmeirense cacheado, sorriso melancia, pedaço de mim. Tem pessoas especiais, e tem o meu irmão. Ele é o melhor.

Foto: Ross Hong Kong

quarta-feira, 14 de abril de 2010

de Belém


Os ingredientes são quase sempre os mesmos: farinha, manteiga, creme de leite, gemas e açúcar. Um pouco mais daquele ali naquele lá, menos no outro de cá. Meus doces preferidos são simples, e eu confesso que nunca preparei um deles. Hoje de manhã tive uma surpresa deliciosa com um pastel de Belém que comprei apressada na padaria de sempre. Como o carro já esperava lá fora, pedi para viagem, não queria vulgarmente engolir o pastelzinho. Chegando na mesa, liguei o computador, abri o pacote e, distraída, dei uma mordida. Parei. O creme começou a escorregar do pastel, mordi de novo. Que gosto maravilhoso é esse? Na hora me lembrou churros, mas agora tenho certeza que estava mais para o sonho que o Gordo de S. Sebastião trazia quente, enrolado no guardanapo. O creme do pastel de Belém estava além de tudo brilhante, fiquei alguns segundos admirando-o, o que eu estou fazendo, Meudeus? Olhei para os lados, como se estivesse cometendo alguma infração (é pecado gostar muito de alguma coisa?). Quis oferecê-lo aos colegas vizinhos mas, desencorajada (talvez egoísta), terminei o pastel sozinha. “A felicidade é sempre individual, nunca é coletiva", do Piva. Do céu!

Foto: daqui

segunda-feira, 12 de abril de 2010

olé


O garoto e o pai jogavam futebol de botão improvisado na rampa do prédio. Com os dedinhos ele formava as traves, a bola devia ser daquelas de gude, a mesma que eu e meu irmão costumávamos usar nos jogos com nosso pai, célebres jogos no corredor acarpetado da velha casa. Passei e ele me contou, com português de nenê: “A gente tá jogando futebol”. Eu automaticamente perguntei: “Ah, é? E quem tá ganhando?”. A resposta dele foi genial e me derrubou com a exatidão de um chute numa janela de vidro: “A gente!”. Eu preciso parar com as perguntas automáticas.

Foto: Criançada nativa da Vila de Jericoacoara, no Ceará

segunda-feira, 5 de abril de 2010

a benzedeira dos Urubus


Media a distância dos ombros de uma rapariga com um barbante. Passou uns cinco minutos fazendo massagens em suas costas e pronunciando umas palavras estranhas. Depois, se abraçaram como se fossem amigas de longa data. Cheguei perto e perguntei: O que a senhora faz? Eu, minha filha, eu meço inveja e jogo fora. Quer? Tira as havaianas e fica aqui na minha frente. Vou te avisando logo que não é todo mundo que tem, não. Minha Nossa Senhora, menina, ainda bem que você me encontrou. Olha só quanta inveja - mostrou uma sobra de barbante em um dos ombros. Ai, d. Rita, e sabe o que mais? Sinto um bolo no estômago. Mediu minha barriga. Aqui tem muita inveja, filha, não vou conseguir tirar tudo hoje senão não consigo voltar para casa de tão carregada. Buscou ervas no canteiro mais próximo, fechei os olhos. Abre os olhos, minha linda, os olhos tem que ficar abertos. As ervas murcharam, viu só? Você não precisa de remédio, não, é inveja e já tirei, mas ainda falta. D. Rita, e como faço, levo a senhora comigo para São Paulo? Toda vez que alguém se admirar de você, diz, você pensa "não se admira de mim, não", e nunca olha a pessoa nos olhos. D. Rita mora em um lugar que ninguém de Jericoacoara conhece chamado Córrego do Urubu II. Nasceu com o dom de quebrar inveja, não foi herança nem de pai nem de mãe nem de avó índia. No dia seguinte, nós duas nos cruzamos em um beco de novo. Você é aquela bichinha que eu encontrei ontem? Sou. Vamos para o fundo de uma casa para ela terminar a bênção. Mas ainda falta, diz, no fim. Chove, como o povo havia previsto - sempre chove no dia de S. José no Ceará. Liguei para a amiga aniversariante e d. Rita a chamou de Paula querida do meu coração; ele ligou, como se sabendo, e virou o João do coração de d. Rita. Terminamos as duas debaixo de uma loja qualquer, olhando a água cair escondidas atrás da fumaça de nossos cigarros.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

manja


O post que a Neide fez sobre os agnolotti me trouxe um sentimento: é por isso que eu amo comida. Um depoimento do italiano Carlo Petrini deixou-a desejosa por fazer uma massa com recheio de sobras. Então ela tirou do freezer um pedaço de coxa e sobrecoxa de frango assado e foi juntando o que tinha na geladeira. “Um punhadinho de salsa já amarelando, talo e tudo, uma tira de pimentão vermelho e um pedaço de queijo duro. Ainda não seria suficiente, então fui ao quintal e peguei uma pimentinha das ardidas, umas folhas de capiçoba, outras de alfavacão e alguns brotinhos de ora-pro-nobis”. Eu amo comida porque agnolotti nunca é apenas agnolotti, porque orecchiette pode não ser a massa mais irresistível do mundo, mas eu raspei o prato e pedi mais no banquete que o italiano Massimo promoveu em homenagem ao encontro acidental de uma neta de bareses com uma família baresa. E quando perguntei se ele mesmo tinha feito a massa, mentiu que sim, e a mentira também é culpada pelo sabor dos orecchiette, tanto quanto o jeito como ele passou o pão no molho de tomate, igual meu pai faz. Os orecchiette desciam como se nem fossem comida, a leveza quase absurda das grandes refeições. No fim, Massimo mandou trazer fatias de melancia. Me contou que é assim que um barês encerra o dia, comendo uma melancia - há carrinhos e carrinhos nas ruas carregados da fruta. Enquanto empurrava a semente pra lá com o garfo, viajei longe, imaginei becos com senhores de boina e seus carrinhos vermelhos servindo jovens, crianças, avôs, a água escorrendo, um ou outro sujeito mais sem noção cuspindo a semente no chão como uma espingarda Rossi cuspindo bala. Desde então eu, que nunca morri de amores por melancia, comecei a namorá-la nos cafés da manhã e achá-la uma fruta das mais simpáticas.