segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

boa semana!


"(...)
Quando o salmo cantar em vez do cantor,
Quando a escritura pregar em vez do pregador
Quando o púlpito descer e partir em vez do carpinteiro que esculpiu o púlpito,
Quando vasos sagrados ou os detalhes da eucaristia, ou a ripa e o reboco,
procriarem com a competência dos jovens artesãos ou padeiros, ou
os pedreiros em seus aventais,
Quando uma universidade for mais convincente que o cochilo de uma mulher ou
uma criança,
Quando o ouro na caixa-forte sorrir como a filha do guarda noturno,
Quando os títulos de garantia folgarem na cadeira oposta e forem meus adoráveis
companheiros,
Vou querer pegá-los com minha mão e fazer deles o que faço com homens
e mulheres."


*Folhas de Relva, de Walt Whitman

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

minha honey, baby


Eu fui comprar grampos Teimosão quando a vi entrando na farmácia. Não estava tensa, só um pouco incomodada. Foi direto ao balcão dos remédios - o corredor nunca pareceu tão longo, aumentaram essa porra? - e pediu:
- Tem teste de gravidez?
A mulher respondeu "sim, R$ 10".
- É seguro? - perguntou, segura.
- 99%.
Grampo Teimosão - O Grampo Para o Cabelo Teimoso, achei. Continuei observando-a de rabo de olho. Pediu a chave do banheiro e a mulher respondeu "no caixa", com ar farmacêutico indiferente.
Ela digiriu-se ao caixa (sem mexer no cabelo, sem coçar os olhos, sem tocar no celular) e eu fui atrás, pagar os grampos.
A funcionária de olhos bem delineados cobrou os 10 reais e se intrometeu:
- Você quer que seja sim ou não?
A farmácia ganhou ritmo de novela e eu fiquei ali olhando para as duas, sem disfarçar mais.
- Não.
- Quando eu fiz, eu também queria, mas...hoje ele tem 2 anos e meio.
- E deve ser a coisa mais linda do mundo, né?
- E quanta dor de cabeça...Bom, quando vier devolver a chave do banheiro, me conta.
Uma senhora com semblante de buldogue e cabelos pretos ralos ouviu a conversa e certamente imaginou "coitada, está grávida, veio fazer o teste sozinha no banheiro de uma farmácia e a primeira a saber da notícia vai ser a mocinha do caixa".
Quando eu lutava contra o durex da caixinha de grampos, ainda a vi perder-se pelos corredores a procura do banheiro. A funcionária sussurou algo para a colega, mas não consegui ouvir. Só enfiei um grampo no cabelo e embarquei no metrô Consolação rumo ao Paraíso, no melhor dos clichês oh, minha honey, baby.

"Eu vou descendo
Por todas as ruas
E vou tomar aquele
Velho navio
E vou tomar aquele
Velho navio
Aquele velho navio..."

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

a casa da Cônego


É a única casa do quarteirão que não sucumbiu à comercialização predatória. Fica entre a Thankyou Copiadora e um escritório qualquer, perto da cafeteria Rubi, onde praticamente toda tarde tenho ido buscar um suco Del Valle de goiaba. Dependendo do meu humor, peço também uma fatia de bolo de mandioca ou milho - que eles servem quente, acho isso tão cortês. Um dia, parada em frente ao portão azul, vi o dono da casinha sair no portão, à espera de alguma entrega. Velho franzino, queixo pontudo e bastante cabelo branco. Gostaria de conversar com ele, que deve saber muito mais sobre futurologia do que todos os Lucianos Hucks do bairro - ao menos a futurologia que me interessa.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

pé com pé


Manoel e Olívia abriram a porta de vidro pela primeira vez, mas com a naturalidade de quem faz isso sempre. Na hora do parabéns, eu instiguei o Manoel a surrupiar a cobertura de suspiro, e ele ficou lá, maior blasé, metendo o dedinho no bolo, lindo com sua carinha de Oompa-Loompa e suéter branco.
O carinho da amiga ao me presentear com um bloco de um São João Batista que é a cara do Pequeno Príncipe. A prima distante que adivinhou o perfume. O bilhete do pai com o clássico emblema de dinossauro, e minha mãe habitualmente tão linda. As três mosqueteiras, sempre ali, felizes por constatar que certas coisas nunca mudam - a tia Dete está mais jovem do que nunca - e outras mudam, que bom (quem é essa garota chique de tubinho branco e delineador nos olhos?).
Que delícia: te espiar com o rabo do olho dando risada sentado no sofá da vovó, ouvindo histórias da minha amiga que nem eu mesma ouvi.
A disposição da avó que há 25 anos abre sua casa para meus aniversários - minha festa de 1 ano foi ali. Tenho um videocassete com uma cena em que estamos eu e a Pó na extinta casinha de bonecas. Eu andando para lá e para cá com um vestidinho balonê cor-de-rosa, mas muda; ela sem levantar do chão, de vestido florido verde, mas uma matraca engatinhante. Não tenho fotos, mas há testemunhas: naquela sala com porta-retratos de noivas já se dançou muita Macarena. E, lá no fundo do quintal, perto do balanço, o menino foi visto dando um beijo (de língua) e passou a fazer ainda mais sentido o apelido "lábios de couve-flor".
A avó é quem recebe o primeiro convidado, e depois dorme sozinha com a bagunça na sala.
Neste ano, senti tanta alegria vendo um monte de gente querida reunida que, na hora de passar a espátula no bolo, não consegui separar a minha felicidade da felicidade dos outros. Que sejam todos felizes e saudáveis! A vida não é fácil, mas vale o tranco.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

bravo

"(...)
E agora, neste momento - que horas são? –
a telefonista guarda o baton na mala usa os auscultadores liga electricamente Lisboa a Santarém
e começou o dia
o pedreiro escalou para o telhado mais alto e cantou qualquer coisa
para começar o dia
o banqueiro sentou-se, puxou de um charuto havano, pensou um bocado na família
e começou o dia
a varina infectou a perna esquerda nos lixos da Ribeira
e começou o dia
o desempregado ergueu-se, viu chuva na vidraça, e imaginou-se banqueiro
para começar o dia
e o presidiário, ouvindo a sineta das nove,
começou o seu dia sem dar inicio a coisa alguma.
Agora fumo, trepidação,
correias volantes de um a outro extremo da fábrica isolada,
cigarros meio fumados em cinzeiros de prata,
bater de portas - pás! - em muitas repartições,
uma velha a morrer silenciosamente em plena rua
e um detido a apanhar porrada embora acreditem nele.
Agora pranto e pranto
na bata da manucure apetitosa do salão Azul.
Agora, regressão, milhões de anos para trás,
patas em vez de mãos, beiços em vez de lábios,
crocodilos a rir em corredores bancários
apesar das mulheres terem varrido muito bem o chão.
Agora tudo isto e nada disto
em plena e indecorosa licenciosidade comercial
pregando partidas, coçando, arruinando, retorcendo o facto atrás dos vidros
- um tiro nos miolos e muito obrigado, sempre às ordens!
(a velha já morreu e no seu leito de morte
está agora um automóvel verdadeiramente aerodinâmico
e a tocar telefonia: and you, and you my darling?)
Há uma hora, Isto! Há duas, ISTO!
E eu?
Eu, nada. Eu, eu, é claro...
(...)"

*Uma grande razão, de Mário Cesariny

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

o terceiro da quarta

lembrar de: nunca escrever "abs" só porque é conveniente. nunca escrever abs. nunca querer ser conveniente.

25


Acabou a era 20 e poucos. Vou fazer 25 anos.
Muda porra nenhuma.
Sou a mesma menina de 11 anos carregando uma mochila com Caprichos, bolachas, um terço de madeira e um hipopótamo de pelúcia.
Só me importo infinitamente menos com o que os outros falam de mim ou pensam sobre mim.
Me importo infinitamente mais em não magoar meus pais, em ser uma boa irmã para os meus irmãos e uma amiga mais bacana do que presente.
Gosto muito do amor.
Sou a mesma menina de 11 anos que preferia se encolher numa cama esconsa em vez de se juntar à algazarra noturna, à espera de uma manhã milagrosa em que levantaria sabendo precisamente o seu tamanho dentro do espaço.
só que agora eu amo essa menina.

*Ilustra: Cadjoo

lavanda


"há muito peguei gosto pelas coisas grandiosas da vida: a temporada das amoras, o cachorro dormindo na grama, o primeiro beijo na frente da igreja, o vento no rosto durante o passeio de bicicleta.
para não enrolar muito, um só canção velha do roberto: se eu pudesse voltar no tempo

e observar o menino que cresceu saltando apressado do carro e caminhando ereto e feliz pela usp, em direção à aula de alemão ou sânscrito.
e o sol ardido do inverno.
e os amigos que eu consigo enxergar sorridentes de dentro do carro em movimento, lá dentro na mercearia, felizes lançando mais um livro.

há muito cultivo com certo enfado o desprezo pelos jogos pequenos e mesquinhos do dia-a-dia: o rateio do poder, a bajulação, a batalha hierárquica pelo melhor computador & a melhor salinha & a melhor secretária.
o combate diligente às idéias novas e à ousadia (o poder é o sexo dos velhos, já dizia leminski).
o desprezo pela pequena história, pelas histórias invisíveis.
a impaciência e o deboche com os mais humildes e sem chance.
os falsos progressistas que, escondidos atrás de uma cortina de mentiras, dizem pelear em nome da objetividade.

é uma olímpica queda-de-braço essa que se trava todo dia entre as pequenas coisas grandiosas e as fabulosas coisas medíocres.
quando as coisas medíocres parecem triunfar, é preciso combater a chegada da angústia com alguma inspiração e presença de espírito.
ajuda muito também contar com alguma proteção de fora: um vaso com arruda, um padre cícero esculpido a canivete que veio do juazeiro, uma santa comprada de um pescador na foz do rio são francisco."


*texto santos & demônios, de jotabê medeiros

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

segundo G.


Hoje de manhã, ao tentar abrir sem sucesso o spray de própolis porque resolveu baixar-me uma indevida dor de garganta, lembrei do meu amiguinho barriga-verde G., 11 anos, e de como ele foi um anjo aquele dia. Anjo como a mulher que se sentou ao meu lado no avião, me chamou com graça de "menina da arvorezinha", arrumou minha carteira escapulindo da bolsa e papeou comigo, sem enfeites ou chiliques. Mas essa é outra história.
Meu amigo G. chegou botando ordem em tudo: pendurou o passarinho de pelúcia no vidro do carro ("era só passar um pouco de saliva..."), carregou minha máquina fotográfica ("tá vendo esses pininhos aqui? não pode encaixar totalmente...") e fez meu rinossoro de própolis funcionar ("essas coisas geralmente vêm com um lacre no meio...").
De quebra, me deu uma de suas balas preferidas, delícia cremosa de morango, e me apresentou uma frutinha amarga dos cânions que ele comeu do pé com prazer de quem chupa bala de morango.
Enjoou quando liguei o ar-condicionado e, ops, descontou na porta do passageiro (abri a porta 20 segundos depois da hora certa). Logo depois, puf, o nariz começou a sangrar. Dei a ele uns papéis de seda amarelos amassados e inutilizados que estavam no porta-luvas. "Pelo menos agora esses papéis serviram pra alguma coisa, né?", sorriu.
Se ajeitou, abriu o vidro, retomou o fôlego e continuamos a caminho do Monte Negro, na cidade sem horizontes, ouvindo o programa da rádio Nevasca.
"Domingo não tem música no rádio", ele me avisou. Deve ser porque domingo é entressafra.
G., você que sabe tudo, o que fazer em tempos de entressafra?

*G. quis ficar com uma de minhas miniovelhas (a negra), e dormiu abraçado nela

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

bebida de limo


Ficava no canto esquerdo da sala de jantar. Eu não lembro de ter perguntado alguma vez por que ela tomava aquilo, nem o que era - acho que certas dúvidas as crianças preferem guardar com elas só para poder posteriormente teorizar à vontade sem o martelo da verdade para esmagar-lhes os devaneios.
"A nonna toma limo", eu pensava, encarando aquele copo de madeira de formato estranho coberto por uma corpulenta cobertura verde. Décadas depois, seria minha vez de tomar limo, mas não na sala de jantar do Morumbi e sim em território gaúcho, na varanda de uma casa de uma cidade chamada São José dos Ausentes.
Leila, nascida em Carazinho e criada em Apucarana, filha de italianos do Veneto, mulher extremamente doce e frágil que nasceu com a pele de um pêssego, olhos verdes e nariz de Gisele Bündchen. Na juventude, foi apaixonada por um general; adulta, casou-se com um italiano da bota que a venerava e, por toda a vida, amou arroz e chimarrão. E calhou de ser minha nonna.
Não foi amor ao primeiro gole, confesso que estranhei a bebida quente e um pouco amarga que ainda por cima deixava escapar pelo canudinho uns incômodos pedacinhos de erva. Mas bastou um chimarrão para cair de amores pela coisa, amor del lama, à moda dos Irmãos Bertussi.
Passei a "matear", como dizem as argentinas, quase todos os dias, levar ervinha no porta-luvas do carro, tem água quente aí na recepção, moçô? Comprei cuia, investi em uma boa bomba e carreguei na mala o peso de seis sacos de mate. Entendi quando a moça suspirou: "Nós só queremos ficar aqui no nosso sítio, com nossas plantas e nosso chimarrão".
Na varanda do apartamento em São Paulo, mostrei minha cuia à família. "Não acredito que você entrou nessas", disse meu pai, orgulhoso, repetindo o gole, mesmo tendo achado a bebida um bocado menos atraente do que sua caipirinha de limão.
"Chimarrão? Mas tu é gaúcha?", chegou a me perguntar um cabra ao me ver pedindo água quente. "Sou neta", estufei o peito. Era minha primeira vez no Rio Grande do Sul, mas senti como se fosse incalculável.

Foto: Gaiteiro em apresentação no restaurante Galpão Costaneira, em Cambará do Sul

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011