sexta-feira, 29 de abril de 2011

e ela ainda cozinha


"Tem gente que não acredita no sabor das coisas, não sou eu. Tem gente que não sabe da 'muerte chiquita', nem enche os olhos de luz ao falar da velha loja da esquina e do tronco largo que acolheu saborosa saraivada de beijos. Tem até pessoas que não conhecem os nomes das ruas por onde circulam. Mas ainda tem os que é só começar que os relatos não cabem na boca e contagiam de vida e adocicam as horas e seu papo é que nem o rum-rum desse gato gordinho, bem comportado, que quieto me aquece o colo. Eu guardo por todas essas memórias afetivas uma amorosa fidelidade sem cobranças. Salivar é viver."

*Trecho de um e-mail enviado hoje às 9h10 pela chef mexicana Lourdes Hernández do qual sem autorização me apoderei.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

e.t


Ela tinha muito medo do E.T. Não podia ver meu E.T de pelúcia que saía correndo do quarto. Brigava comigo. Eu achava muita graça e, óbvio, adorava provocá-la. Esconder o E.T debaixo do travesseiro dela, esconder o E.T na estante atrás de outros pelúcias, e pular em cima da cama dela com ele quando as luzes estivessem apagadas.
Ontem vi uma imagem do bichinho, tão meigo, e tive um ataque de riso. Liguei pra ela na hora, meio rindo meio falando. Não disse nem oi, tudo bem? Só perguntei "meu, por que você tinha medo do E.T?".
Rimos muito, ela reafirmou que o E.T é horrível e assustador, e falamos de um assunto adulto: bebês. Ela acaba de virar tia. E eu, tendo sido tantas vezes e alternadamente seu Dom Quixote e seu Sancho Pança, e ela meu Dom Quixote e meu Sancho Pança, me senti também um pouco tia.
Deve ser isso que é crescer: um dia, rir do medo com a pessoa que mais te assustou, interromper o papo para falar de um assunto adulto e desligar o telefone subitamente porque a avó pediu para entrar na igreja e rezar uma ave-maria com ela.

domingo, 24 de abril de 2011

o nosso


Amamos o que não conhecemos, o já perdido.
O bairro que foi arredores.
Os antigos que não nos decepcionarão mais
porque são mito e esplendor.
Os seis volumes de Schopenhauer que jamais terminamos de ler.
A saudade, não a leitura, da segunda parte do Quixote.
O Oriente que, na verdade, não existe para o afegão, o persa ou o tártaro.
Os mais velhos, com quem não conseguiríamos
conversar durante um quarto de hora.
As mutantes formas da memória, que está feita do esquecido.
Os idiomas que mal deciframos.
Um ou outro verso latino ou saxão que não é mais do que um hábito.
Os amigos que não podem faltar porque já morreram.
O ilimitado nome de Shakespeare.
A mulher que está a nosso lado e que é tão diversa.
O xadrez e a álgebra, que não sei.

O Nosso, de Jorge Luis Borges

Foto: a gatinha Shell

sexta-feira, 15 de abril de 2011

tá morna?


Acho que é mais difícil escrever quando a água não tá muito quente nem muito fria - os dedos doem mais lá do alto do Monte Afadjato.
Ando aprendendo a gostar do morno. Dedilhar com a ponta dos pés a calçada torta, esperar a moça dar o troco sem impaciência, usar batom rosa sem querer impressionar, conseguir lembrar de tomar três vezes ao dia o remédio antroposófico, não se apreender com um e-mail apreensivo.
Hoje espirrei uma mentira boba com muita convicção, e tenho certeza que isso é culpa dessa fase morna: as costas me pesam menos...
Quando tá morno você só quer ficar com os pés lá, na bacia, espiando o noticiário e levando muito a sério a escolha do esmalte.
Uma ilustração do Sempé. Vestido estampa de pijama. Meio móbile pronto. Carinho no pé. Abajur em vez de lustre, talheres na caneca, telas de gato na janela. Uma palavra nova: basculantes.
Morno é bom, é curto, é curtido, quem não gosta, afinal, de água morna na cabeça, água morna esquentando as costas...?
Só não combina, jesus que não, perdoem-me os discípulos de Isabela Raposeiras, com café com leite. Este me traga espumado e desmoderadamente quente.


Foto: Jota

sexta-feira, 8 de abril de 2011

terça-feira, 5 de abril de 2011

Soneto de Todas as Putas


Não lamentes, oh Nise, o teu estado;
Puta tem sido muita gente boa;
Putíssimas fidalgas tem Lisboa,
Milhões de vezes putas têm reinado:

Dido foi puta, e puta d'um soldado;
Cleópatra por puta alcança a c'roa;
Tu, Lucrécia, com toda a tua proa,
O teu cono não passa por honrado:

Essa da Rússia imperatriz famosa,
Que inda há pouco morreu (diz a Gazeta)
Entre mil porras expirou vaidosa:

Todas no mundo dão a sua greta:
Não fiques pois, oh Nise, duvidosa
Que isso de virgo e honra é tudo peta.


*Soneto de Todas as Putas, Bocage

segunda-feira, 4 de abril de 2011

a condutora


A mãe dela conta que, quando era criança, vivia queimando lâmpadas.
O que certamente tem alguma relação com a fascinação que ela tem por casas de luz. Por negativos de fotos, por retroprojetores (já comprou uns três em uma loja do centro e teve que pagar excesso de bagagem no aeroporto quando resolveu levar um para Santa Catarina).
Coloquei essa foto em um álbum virtual com a legenda "um pedacinho dela". A outra amiga matou: "...em luzes e sombras".
Enxergar nossas luzes e sombras é trabalho para uma vida.
Mas tem gente que nasce com uma eletricidade capaz de ajudar o outro a acender ou apagar a luz. Minha Manoela-cravo-e-canela.