quarta-feira, 26 de outubro de 2011

i wander



Wander. To move about without a definite destination or purpose. To go by an indirect route or at no set pace. To proceed in an irregular course. To go astray. To lose clarity or coherence of thought or expression.

Como diria o Arnaldo Baptista, "yeah that's me, that's me, that's me"

(só que, como toda pisciana, o que ninguém sabe é que finjo de wander. eu costumo saber aonde minhas barbatanas estão me levando)

obs. existe sinônimo em português?

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

guerreiros paraíbas em são paulo



12 horas com elas


Nas primeiras poltronas havia duas senhoras. Uma, crente, com rabo-de-cavalo baixo, cabelo grisalho, viajando ao lado do marido que tinha fala mole e aparecia quase nada. A outra, de óculos e cabelo grisalho batendo no queixo, vi no escuro, mas notei ter olhos vivos e ambiciosos. Como acontece muitas vezes, as duas conversavam mas não se ouviam. O que uma dizia servia apenas de trampolim para a outra dizer alguma coisa, numa egocêntrica aeróbica oral. "Eu já tive uma chácara em Mairinque, eu choro até hoje de lembrar", falava uma, e a outra emendava "eu tive uma chácara em Osasco". "Tenho seis binetos"; "eu tenho 4"; "eu moro perto da Vila Yolanda"; "eu morei no Vila Yolanda sete anos". Não perguntavam mas porque você saiu de lá, mas quantos anos têm os seus netos, eram naturalmente indiferentes à história da outra. Pode ser que voltem para casa mais felizes e contem ao filho "você não sabe a coincidência, viajei ao lado de uma mulher que é paranaense e mora em Osasco", e talvez realmente tenham se alegrado com o encontro. Pode ser o meu espírito neste fim de manhã de segunda, mas achei aquele pano de fundo de um desbotado triste e só triste.

foto: hamsters do playing pet da rua fidalga

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

alcançar escutar


Acho que estou encaretando. Acabei de escrever para uma amiga: que bom acordar cedo, sair do trabalho quando ainda é dia, passear com o cachorro no parque, fazer hidroginástica, passar no mercado, comprar flores talvez, comer um lanche em vez de jantar. E também eu disse: sim, você está certa, fique, fique, tenha paciência, não dá pra trocar isso por aquilo, quando é que se tem uma grana dessas no bolso? Estou considerando a paciência uma virtude de ouro, e foi me cair nos braços a jabuticaba, essa fruta que ensina a esperar. E de repente tudo o que eu dizia há 2 meses me parece justo mas não se ajusta mais aqui, é como se aquela certeza que antes pedia velocidade e pressa continuasse ali grande e se acomodando na poltrona, mas pedindo: vá devagar, que eu te alcanço.

se me veio me é


eu caminho seguindo
o sol
sonhando saídas definitivas da
cidade-sucata

isto é possível
num dia de
visceral beleza
quando o vento
feiticeiro
tocar o navio pirata
da alma
a quilômetros de alegria

(Floresta sacrílega, Roberto Piva)

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

semana da jabotecaba


Faz tempo que não tenho um sonho poético, eu penso lendo Adélia Prado. Já tive muitos e um dia desses mesmo uma amiga me contou um obviamente poético.

Há três histórias de jabuticaba que eu não contei:

É pura coincidência, mas acontece que jabuticaba é minha fruta favorita. Sou capaz de recusar um brownie de chocolate e um pote de doce de leite por um punhado de jabuticabas doces e geladas.

A segunda história é de uns 15 ou mais anos atrás. Nas férias de janeiro em Tatuí íamos sentados no braço do trator ou de charrete ou de caminhonete até o sítio do Seu Pedro. Lá brincávamos com os pintinhos (que ele de vez em quando nos deixava levar para o nosso sítio) e comíamos frutas do pé. Lembro da manga e da jabuticaba. Pode conter sonho essa história, mas uma vez eu encontrei uma jabuticaba tão grande, e depois de ver a jabuticaba paulista no Ceagesp eu sei que era ela, uma paulista, e guardei-a na mão escondida pra comer depois. Sentada na caminhonete, mostrei a jabuticaba para meu primo Bruno, ele a roubou e comeu. Foi tão devastador que nunca mais me esqueci da jabuticaba gigante do sítio do Seu Pedro.

A terceira é a história de uma jabuticabeira que vivia num terreno dos Jardins até que um dia resolveram construir o shopping Iguatemi. Iam derrubá-la não fosse pelos pedreiros que trabalhavam na obra. Eles transplantaram a árvore, estimavam uns 50 anos, para sua casa na Lapa. A Lapa virou um bairro chique, venderam a casa, a moça que a comprou a revendeu para Chus & Sérgio, que gostaram dali muito por causa daquela jabuticabeira enorme no quintal. A proprietária disse "quase derrubei essa árvore". Ela empatava sua vida na hora de manobrar o carro.

Um dia terei uma jabuticabeira no quintal pra chamar de nossa (e prometo não ser rancorosa e convidar o Bruno pra comer dela).

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

conclusões de terça à noite

Ontem, na degustação de cachaças, a chef fez um comentário legal sobre um blend e o dono da marca disse: "Você não está sendo conclusiva".


Ela rebateu na hora, com espontaneidade e risadas:

"Eu não sou conclusiva".



Para se adotar, não?

Na foto, a mais inconclusiva e encantadora das criaturas: Abacaxi

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

um pouco mais de paciência

Carlinhos encontrou a canoa cheia d'água e, com um pedaço de garrafa improvisado que me lembrou aqueles potes cônicos que usamos para pegar pó de café e arroz, pôs-se a esvaziá-la. Agachado, e eu de pé, olhando. Pensei que o utensílio era pequeno demais para esvaziar uma canoa cheia e quase impacientemente sugeri que tentasse achar um outro mais diplomado, talvez um balde? Mas, congelada naquele quadro - o manguezal, o homem pintando a canoa de trás, o barco para seis pessoas tão amado por Carlinhos estacionado ali ao lado,  o sol dourando o novo galpão asséptico das paneleiras -, não consegui dizer nada. Ficamos os dois ali uns 7 minutos, eu de pé e ele agachado. E de tudo que vivi em Vitória em longos um dia e meio é curiosamente esse o momento que mais me vem e me volta à cabeça uma semana depois. Eu vi naquela canoa uma tempestade, ele viu uma chuva de verão.